Deixa Ela Entrar – Análise completa de livro e filmes

 letmein_01

   Talvez uma das melhores obras de terror escrita na última década, Deixa Ela Entrar do sueco John Ajvide Lindqvist sem dúvida merece uma análise completa pelo delicioso livro e suas duas adaptações cinematográficas. Primeiro falaremos sem spoilers, depois irei comparar os filmes entre si e com o livro, mas sinalizarei para quem não teve contato com nada da obra para não prosseguir.

    Na maioria da história estamos sobre a ótica de Oskar, um garoto de 12 anos morador de Blackberg no subúrbio de Estocolmo. Oskar vive com a mãe separada num conglomerado de prédios no estilo CDHU e sua vida é um tanto difícil. A mãe trabalha o dia inteiro, existe pouco contato com o pai e ele sofre pesados episódios de bullying na escola.  Sua vida segue tristonha e entediante quando vizinhos novos chegam na calada da noite: um homem de meia idade acompanhado de uma garotinha com modos atípicos. Inesperadamente Oskar se vê numa crescente amizade com essa criança, que se apresenta como Eli. Paralelo aos garotos, conhecemos um grupo de boêmios desafortunados encabeçados por Jocke e Lacke, que começam bem destoantes do restante da narrativa, mas que tem o encaixe perfeito no desfecho da mesma.  Enquanto isso, em Vallingby, Vasterort e outros locais próximos a Blackberg assassinatos misteriosos e de caráter ritualístico acontecem trazendo um pouco do ponto de vista do policial Staffan e detalhes da investigação.

John Ajvide Lindqvist. Será que eu sou maluco? Sim ou com certeza?

John Ajvide Lindqvist. Será que eu sou maluco? Sim ou com certeza?

    Tanto o livro como os filmes deixam bem explicitados nas cenas iniciais que estamos entrando num romance sobre a temática vampira. Por favor, não entorte o nariz. Em Deixa Ela Entrar vamos nos regojizar com a presença vampiresca clássica, medonha e original. Nada de rapazes sensíveis brilhando a luz do sol, irmãos disputando uma mortal adolescente ou escolas para controlar ferinhas sanguessugas. John Ajvide foi cuidadoso em pesquisar todos os detalhes instigantes na lenda da criatura e justificar genialmente alguns de seus mitos.

    Os personagens humanos são os que ganham verdadeiro destaque por serem bem apresentados, completamente fragmentados e deturbados com seus defeitos sórdidos. Uma estrutura verossímil vai se criando sobre seus caráteres e nenhum ato durante as quinhentas páginas do livro soa forçado ou deveras romantizado. No fim, temos uma história muito bem contada, melancólica, aterrorizante e sumariamente instigante.

    John Ajvide ainda carrega aquela característica narrativa mais seca, sem ensejos adjetivais melodramáticos, algo que achei muito semelhante ao seu falecido conterrâneo Stieg Larsson da Trilogia Millennium.

       Após o grande sucesso no romance, duas adaptações foram gravadas. O sueco Lat Den Ratte Komma In e o norte americano Let Me In, ambos traduzidos para o mesmo título do livro, Deixa Ela Entrar.

Filme Norte Americano.

Filme Norte Americano

Filme Sueco

Filme Sueco

      Creio que ver os dois filmes são experiências diferentes. O sueco tem um ritmo menos frenético, mas um clima muito mais melancólico e condizente com o livro. Além disso eles tentaram ser paralelos as linhas de John Ajvide, o que na minha opinião deu uma bagunçada no tempo narrativo. Os efeitos especiais não são caprichados, o que é compreensível por não estarmos falando de filmes norte americanos, mas algumas cenas irritam um pouco. O cena final, da piscina, é o que realmente faz essa versão valer a pena!  Já o americano não trata-se de um remake como todos dizem, já que uma proposta diferente de adaptar o livro foi trazida, e não uma refilmagem do filme sueco. Vamos ter efeitos especiais melhores como era de se esperar, uma trilha sonora excelente e um Oskar com mais “cara” de criança alvo de bulliying. Em compensação, aquele clima tenebrosamente congelante de Blackberg, um dos elementos para intimidação no terror, desaparece, já que tudo se passa no Novo México.

     Num balanço geral, se ficou interessado (não tem como não, poxa!) leia o livro, supremo no gênero e disponível numa edição lindíssima pela Editora Globo. E depois embale nos dois filmes, pois temos ótimas atuações e as cenas de Oskar interagindo com Eli são uma degustação a parte!

Capa do livro, Editora Globo.

Capa do livro, Editora Globo.

 A partir daqui entramos na análise COM SPOILERS>>>>>>

     Quando comecei com a leitura de Deixe Ela Entrar empaquei em determinado ponto, mas não por falta de vontade, e sim porque fiquei um pouco melancólica com as cenas em que Hakan ganha narração. A figura do “tutor” e servo de Eli é certamente a personalidade mais obscena e asquerosa, além de deplorável, criada pelo autor. A sua cabeça nos é apresentada bem confusa, chegando a me fazer sentir pena dele, subjugado pelas necessidades de Eli. Entretanto John vai nos mostrando a verdade em camadas, que Hakan tinha uma psicose agressiva controlada apenas pelo poder predador da garota sobre seu frágil corpo humano. Uma vez lhe concedido os poderes vampirescos, o homem em farrapos vai ao encontro de seu amo com um intuito que me deixou chocada, embora já estive claro para o andrógeno vampirinho. Fiquei um pouco frustrada pelos filmes não mostrarem esse lado negro de Hakan e o americano ainda florear para outro foco, mas acabei entendendo. Pedofilia nunca é um tema fácil de se abordar e causa uma natural repulsa nas pessoas “normais”. Sobretudo, seria uma ponta bem solta nas películas pela falta de tempo em construir a patologia do ex-professor de sueco.

Imagens do filme sueco

Imagens do filme sueco

     Podemos ver claramente um defeito desses (minha opinião) quando o filme sueco inseriu os amigos boêmios na história. Essas passagens ficaram vagas e desconexas, Virgínia sendo atacada pelos gatos de Gosta ficou tosco, e como Lacke chegou até o apartamento de Eli, sem nenhuma explicação ou investigação prévia, deixa o expectador confuso. Tudo bem, eles moravam no mesmo condomínio, mas isso ainda não é suficiente para ligá-los.

Cena do filme americano

Cena do filme americano

      Já o estadunidense resolve bem melhor esse dilema, o de quem vai procurar Eli no seu descanso diurno no apartamento. O maior destaque para a investigação policial fluiu sem excessos, como no livro, e nos trouxe uma ótima cena da criança se transformando no predador sanguinário bem de perto. Já Chloe Moretz não transpareceu aquela aura sexual duvidosa, marcante nas descrições de John Ajvide e bem adaptada com Lina Leandersson.

Arte baseada em cena antológica do filme sueco.

Arte baseada em cena antológica do filme sueco.

    Sobre a origem de Elias, talvez esse ponto devesse ser o único citado brevemente – poderia ser numa conversa dele com Oskar – , sem o auxílio dos “selinhos” de flashbacks. Ficou destoante, de repente me sentia dentro de um trecho da vida do vampiro Lestat de Anne Rice. O clima moderno e misterioso estava de bom tamanho.

     E sobre o protagonista e seu desfecho, um desenvolvimento triste e realístico nas três obras. O tempo todo ficamos em dúvida se Eli escolheu Oskar com a finalidade de ter um novo servo ou se aquela amizade entre eles realmente preenche o vazio infantil dela como faz com ele. Obviamente que o vampiro pressentiu a tendência sociopata em Oskar desde o momento em que presenciou-o “assassinando” o tronco de árvore e isso é de utilidade ao seus propósitos alimentares. No fim, quando ela retorna para salvá-lo, a mim ficou implícito de que Eli nem tentou partir, mas ficou esperando o momento exato para inserir-se na vida confusa e fragmentada dele e lhe convidar a fugirem juntos.

   ” – Posso Entrar?

– Pode Entrar.”

Anúncios

Um comentário sobre “Deixa Ela Entrar – Análise completa de livro e filmes

  1. Fêh disse:

    Nem li o artigo todo pra não entrar nos spoilers, mas devo admitir que eu ri demais com a comentário “Nada de rapazes sensíveis brilhando a luz do sol, irmãos disputando uma mortal adolescente ou escolas para controlar ferinhas sanguessugas. ” É exatamente a ideia que tenho rsrsrssr

    Vou ver se vejo o filme. Se realmente me interessa, parto para o livro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s